segunda-feira, 2 de março de 2015

O ser humano no que tem de pior em Relatos Selvagens


Torci muito durante o Oscar, na semana passada, por este filme e é uma pena que ele não levou o prêmio. "Relatos Selvagens" é um trabalho surpreendente do diretor argentino Damian Szifron, que em seis pequenas histórias, mostra a capacidade que todo o ser humano tem de tornar-se em monstro, quando algo o contraria.

A surpresa e as viradas repentinas fazem parte de cada um dos roteiros, assim, é melhor que o espectador vá ao cinema sem saber muito sobre as seis tramas, mas dá para adiantar que em todas as situações sempre existe uma violência assustadora que aqui é encarada sempre com uma boa dose de humor negro.

Existe também alguma dose de crítica social e o episódio em que Ricardo Darin aparece como o engenheiro às voltas com a burocracia de um sistema em que ninguém sequer se preocupa em ouvir as reclamações justas de um cidadão é o mais interessante neste quesito.

Também para ver com um pouco mais de atenção, especialmente aqui no nosso país, onde algumas vezes a justiça, com o apoio da mídia, tenta transformar vítimas de atropelamento em réus, o episódio do garoto rico que quer se livrar da culpa de um acidente, dá aquela sensação de que vemos esse tipo de história todo o tempo.

Mas a melhor de todas as histórias é a final, uma festa de casamento em que o casal Érica Riva e Diego Gentile vivem um verdadeiro pesadelo.

Produzido por Pedro Almodovar o filme é diversão inteligente do tipo que dificilmente chega às nossas telas nos dias de hoje.

Confira o trailer de "Relatos Selvagens":






segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mais uma patriotada americana


O novo filme do grande Clint Eastwood chega mergulhado em muita polêmica, "Sniper Americano" é a história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), um atirador de elite que é considerado o responsável pela morte de nada menos do que 160 inimigos, durante a Guerra do Iraque.

E fica difícil de enfrentar o filme, sem um certo horror que perdura por toda a sua exibição. O Chris que Bradley Cooper mostra na tela pode até posar de herói, mas padece daquela mentalidade que hoje explica muita coisa de ruim que continua acontecendo no mundo; onde os americanos, em nome de uma guerra ao terrorismo, atacam quem bem entendem sempre com muita truculência, sem qualquer preocupação com direitos humanos.

Basta dizer que Chris refere-se aos muitos inimigos, que dizima pelas ruas de cidades iraquianas, como "selvagens". Com uma atitude racista, para dizer o mínimo, ele não hesita em atirar em mulheres e crianças para cumprir sua missão de proteger os soldados americanos envolvidos nas ações.

O diretor Clint Eastwood tenta redimir Kyle de culpa mostrando o personagem como vítima de um sistema de pensamento que herdou do pai, cowboy durão, que exige que seus filhos assumam a atitude do "cão pastor" e nunca das "ovelhas" ou dos "lobos".

A interpretação de Bradley Cooper, mais "bombado" do que nunca, tem aquela expressão que nos acostumamos a ver em grandalhões descerebrados como Silvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, mas ainda tem a seu favor uma finíssima, quase invisível camada de verniz, especialmente nos momentos em que ele aparece tão deslocado, fora de combate, sentindo-se um estranho em sua própria casa. Nada que chegue a justificar sua indicação ao Oscar, que no entanto, me pareceu muito mais uma atitude política/mercadológica feita em favor de um filme que tem conseguido levar muita gente aos cinemas.

Além disso, com todo o rigor técnico de grande produção que o filme recebeu, especialmente nas cenas de ação, onde merece destaque um combate travado em meio a uma enorme tempestade de areia que mistura soldados e inimigos, chega a ser imperdoável que uma simples cena, em que Bradley está em casa, ajudando a cuidar de sua filha recém nascida, o truque de usar uma boneca no lugar de um bebê de verdade, consiga causar risos não intencionais na plateia.

Algo que não se espera ver nem em filme independente, com elenco desconhecido, rodado quase sem orçamento, o que dirá em uma super produção indicada a nada menos do que 6 Oscars.

Confira o trailer de "American Sniper": 








A busca da natureza para redenção


Mais uma surpreendente história da vida real que vai parar nos cinemas, "Livre" tem seu roteiro baseado na autobiografia de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon), entitulada "Wild: From Lost To Found On The Pacific Crest Trail".

O projeto do filme é uma aposta da própria Reese Witherspoon, que, descontente com os papeis que vinha recebendo como proposta dos grandes estúdios e produtoras, decidiu criar sua própria produtora.

A adaptação do roteiro ficou nas mãos do prestigiado escritor Nick Hornby que optou por idas e vindas no tempo para mostrar o que levou uma mulher comum, recém divorciada e sem qualquer preparo físico ou experiência prévia, a colocar uma mochila maior do que ela nas costas e enfrentar as 1100 milhas de caminho entre desertos e montanhas da chamada "Pacific Crest Trail", uma trilha para ser feita a pé que segue próxima da costa oeste dos EUA, e corta o país de ponta a ponta, indo da fronteira com o México até a fronteira com o Canadá.

Nem é preciso dizer que os cenários atravessados por Cheryl são pura beleza natural, mas o desconforto físico que ela parece estar enfrentando por quase todo o tempo não parece deixar a vista de desertos e montanhas assim, tão atraente assim aos olhos do público.

Além de captar a beleza e os perigos do caminho, o diretor Jean-Marc Vallee mostra todo o horror da vida pregressa de Cheryl como se filmasse um pesadelo, em contraste com o cenário de sonho da trilha.

Aí, merece destaque a interação entre Reese Witherspoon e Laura Dern, que interpreta Bobbi, a mãe de Cheryl, talvez a responsável pela maior de suas feridas e também a mais difícil de curar.

A caminhada solitária pela maior parte do tempo, também traz novos personagens para a vida de Cheryl e com eles ela parece aprender cada vez mais.

"Livre" é um daqueles filmes que ajudam a revelar o quanto realmente estamos desconectados da natureza e o quanto um contato real com ela pode ser a cura para todos os nossos males.

Assista ao trailer de "Livre":